O poeta também escreve sobre felicidade

Sorrio desgraçadamente
de modo que meus músculos
tremem
e meus ossos
estalam
cantando surpresa.

Um sopro de não sei o que
que nasce de um ventre puro,
esse contentamento
que sinto ao abrir os olhos,
cortinas antigas e vermelhas.

É essa pureza
que chamo de satisfação,
esse dente torto
que em meu sorriso
também canta a surpresa.

Hoje a água molha as ruas,
os pés infantis,
que correm para suas mães,
em uma claridade
infinita.

Hoje as rosas brilham para mim.

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silêncio

choro.
choro seco e ameno
feito a primavera de setembro.

e quando acalmo-me
é a distração aguda que brota
como o pão na mesa de café.

tremo.
um tremor inquilino, estúpido,
melancólico,
mas que logo se desfaz em lembrança
(ou frustração).

lembro-me.
do natal, ou do hospital,
ao ver mais um
que partilharia do meu sangue
vir à terra.

(paro de escrever,
os grilos vibram em algum lugar)

não chamo de escuridão,
chamo de saudade,
ou toda esse palavreado
de quem tenta achar consolação
em um alicerce qualquer.

as bochechas,
estas já estão secas,
salgadas como o mar,
que abriga um cruzeiro
com passageiros ausentes.

chore, mãe,
chore, tio,
chore pai.

a saudade gerou realidade
e gera nascimento,
se por mais um segundo, um ano ou dez,
ainda viveremos.

não com ela,
mas por ela,
que hoje é lua
em um céu sem nuvens.

(Hoje completo 16 anos. Hoje também faz um mês que perdi minha prima devido a complicações em uma cirurgia. A conformação ainda não chegou, nem sei quando chegará. Meio clichê, mas só o tempo diz. 16 anos atrás eu nascia e minha prima também tinha 16 anos. Ela acabava de voltar de uma temporada no Canadá. Não sei o que estarei fazendo daqui a 16 anos. Não sei se o filho da minha prima estará assistindo ao nascimento do meu filho, não sei se estarei fazendo o que gosto e amando quem merece ser amado. Não consigo projetar a vida para daqui a 16 anos, como acho que ela não projetou para apenas 32. Não tenho religião e não sei o que esperar após a morte, só sei que chegará. Não sei quando, como ou onde. Aprendi que não devo pensar em daqui a 16 anos, nem 50 ou 1. Também não pensarei no dia de ontem, ou no ano passado. Vivo hoje, e espero que assim todos consigam viver.)

Reflexão sob meia luz

Sendo, distingue-se.
Na pupila do ser,
transfigura-se
as certezas inexatas:
ainda há o que descobrir.

Incógnita,
erro constante
este que percorre veias
e adentra abismos:
nessas profundezas
perdem-se distinções,
é tudo oblíquo.

Somam-se as incertezas,
e de ser em ser
nasce a constância:
está tudo errado,
sem solução,
vive-se de angústia,
vive-se de mudança.

O sangue é solúvel no fim do abismo:
Viva a dis-
-solução!

O que penso quando falo de saudade

Não é um pensamento momentâneo. Como oxigênio, agora já faz parte do que sou. Maldito seja aquela que quis criar a palavra ‘saudade’ no português.
Meu corpo hoje é sonolento, tento dormir, mas sob as pálpebras descansa um quê que não sei. Não sei mesmo, só sinto. Nem falo muito sobre isso, para não levantar suspeitas. Mas hoje sou como um defunto autor, estou livre dos julgamentos, inclusive dos meus.
Não que tenha morrido, isso não. Entrei apenas em um casulo de onde não posso ver nenhum desses rostos que já andavam meio apagados. Serei sincera, prometo.
Acho que enrolo demais, mas não é fácil falar sobre isso. Saudade não é algo meu, é mais universal do que um campo léxico abrange. Não é para ser dito com a boca, mas com os olhos. Não me refiro aos olhos que sustentam-se ao ver o motivo da eterna saudade. Mas aqueles que calam-se, fecham-se e apenas sentem o vento que faz cócegas nos pés.
Se não sou direta, é porque tenho medo. Temo agora o que isso tudo pode trazer. Abro meu peito de uma maneira tão sincera. O mundo não está acostumado a essa sinceridade nua e largada. Tudo hoje é tão objetivo. Perdi-me em algum lugar.
Aquece minha saudade em algum braço qualquer. Em posição fetal, pondero se o que sinto no estômago é fome ou aquele quê que não sei. Poderiam descer as lágrimas agora mesmo, mas saudade não é tristeza. Tampouco carência. É o amor real que volta a ser ingênuo e platônico. Ele mesmo dizia. Falo de Platão agora. Dizia que nos dividimos no sensível e no inteligível. A saudade é a ponte entre esses dois. Já não sei o que falo, nem gosto dessa filosofia toda.
Sinto tanto a falta. Falta de tudo e tanto. Eu, que tocava piano tão bem, e escrevia apenas por escrever. O tempo roubou isso de mim também. Isso também é saudade. Sinto saudade até de mim, que egocêntrica.
Acho que deveria calar-me. Alguém pode chegar aqui e perceber que já estou dizendo tudo. Desculpa-me se não me contive.
A saudade rói por dentro, feito um parasita. Mas um parasita que me ama. Viu? Não há mais coerência. É tudo palavra.
Hoje volto ao meu piano.

jazzy

é noite de domingo e meu peito explode como uma improvisação. são acordes momentâneos que, em tom menor, se misturam à batida dos homens que trabalham ainda na rua. mas domingo de noite, por que trabalham? pelo pão quente ou pela carne quente, que anseia em receber o sangue de um esforço único. chega de vida vazia, essa dos homens, essa minha. chega de carne sedenta por sangue corrente. o jazz já mudou de compasso. anda tão alegre. eu era alegre, alegre no carnaval nas praias ou na serra. eu corria com pés de menina torta e cheia. ando tão vazia. vazia de vida e de mundo. dizia wittgenstein que o mundo é linguagem, é palavra. mas acho que ele estava errado, ou não. perdi o mundo mas não perdi a palavra. solto-as como quem solta fogos no dia de grande final. já foi-se a final. brasil ganhou, não ganhou? não sei, só sei que o jazz acelerou, e bato meus pés acompanhando. o gato dorme em algum lugar, o mundo todo dorme em algum lugar, mas eu continuo aqui acordada. não é a luz que me acorda, sequer o jazz, é você que me chama aqui para escrever-te. é só você, não é. não fecho os olhos, apesar deles já beirarem o suicídio. queria abrir os olhos com essa vontade para ver o mundo, ver essa gente. são tantas pernas, magras, bonitas e amarelas. mas só vejo teu rosto, que assombra-me feito escuridão. eu ainda vou fugir. vou abrir os olhos. vou escutar, aprender, crescer. o jazz acabou, mas meus olhos são inexoráveis. não durmo, e acho que nunca mais dormirei.

René

the two misteries

Vivo hoje em dúvidas perenes,
a dúvida metódica,
dúvida soberana
que persegue
uma tristeza conterrânea.

Vejo meus passos no escuro
e com um sibilo errante,
conto das falsas passadas
a quem partilha da dúvida constante.

Se na razão me perco,
em alguns braços me acho
delirante, submissa,
mas sem admitir premissas.

Minha dúvida constante
transfigura-se na verdade real
da morte distante
(distante?).

Adeus, racionalidade,
adeus, constância.
Que meu ser delirante,
torne-se um vir-a-ser fumegante.

Bela, regrada e “do lar”

lookPequei,
Exibi nuances da sujeira que me domina,
Gritei demais, chorei de menos,
Assustei os que calavam-me.

Perdão,
Diante de meu cerne selvagem,
Descontroladamente agi,
Ofendi-os tentando marchar
Minha marcha de vergonha,
Marcha proibida.

Não fui mulher,
Fui uma besta feroz,
Que anseia pelo gosto da carne
E suja os lábios com esperança.

Será esta a última vez
Em que irei correr livremente?
Não.

Queimarei minha moradia,
Desestruturarei alicerces,
E deixarei vagar sob minha saia
O vento que mostra o que realmente sou.