Caíram Meus Terços Sobre o Quênia

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Ainda me afirmam
as vozes sonolentas
haver paz no peito que pulsa,
negando o que meus olhos sangram:
um sopro santo e sanguinolento
do sofrimento irremediável.

Não me digam, se já sei
que a terra não dá,
que os feridos não saram,
que as crianças correm
e se explodem em mil sonhos
de bonecas e cavalos.

Apenas me sinalizem
se os acordes geram valsas
para os vestidos manufaturados
das meninas virgens e puras
rejuvenescidas sob a luz
de um Deus cristão.

Pulsem os peitos e as paredes
para as andorinhas persistententes,
para as árvores musas,
para o rio intermitente,
banho das matas e das mulheres

Mulheres grávidas.
Mulheres mães de uma guerra inteira,
tomadas ao acaso pelo céu que lacrimeja
diante da perda.

Não sinto se o peito pulsa,
se são as marés que os afundam,
se são os homens que os enterram,
se é a poeira que os velam,
os temerosos, distantes da fuga.

Estáticos, eles aguardam
pela paz de um peito que pulsará
pelos ossos decompostos
revividos em matéria orgânica,
fruto para o solo
onde correrão os pequenos sem pernas.

Fujam meus olhos dos gases que os umidificam]
e possam testemunhar
o que o peito absorverá.

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expectativa

new year´s resolutions

Não verbalizo as expectativas
nem questiono
um ser é maior
que o som
de vozes e de pernas
que correm, correm, correm
para não ver,
mas serem vistas

Ainda sinto
e verbalizo o sentido
de tal emoção
– dessa não escapo,
nem me guardo
sob prédios, bosques, o mar

Grita-se pelo que se espera
– isso creio interpretar
e se acumulam os adivinhos
banhados em tolices salgadas,
precipitam tempestades

Meu pé direito dói,
piso o esquerdo
e os céus cortam
para a vida
em metamorfose

Ciranda de Pedra

O sol bate em alguma janela, entra pela minha e incendeia o cômodo. Lá fora, os carros rugem, as crianças choram e o suor pinga, enquanto a cidade está estática, mas desliza para todos os lados, dissolve-se, renasce, transmuta viva.
Ainda há espaço para mais uma avenida, para mais uma favela, mas os parques secam, a caatinga invadindo a vida urbana. Vejo que os pássaros se transformaram em aviões em conexão, os pensamentos no ar, voam para o norte, para o sul, aqui não ficam, porque aqui não há lugar para tanto pensar, tanta ideia que ameaça a lei da sobrevivência. Porque a cidade também é uma selva, e o homem é bicho. Bicho que perde o manto peludo, mas não perde o medo da morte, o desejo carnal, o pecado.
Ainda ensinam as crianças cantar músicas de ciranda? A darem as mãos sem nenhum propósito, sem antes lavá-las, limpando-as do verme humano? Elas gritam, a luz brilhante nos olhos, nas faces oleosas, as espinhas já nascendo. Me perco do tempo, não sei mais quem é criança, quem é adulto, quem é velho, se tudo corre no mesmo sentido, se tudo fala a mesma língua, ingênua e silenciosa, sem nada a dizer.
Meus pais ainda cantaram a liberdade, sob as armas da opressão. O que tenho a cantar, se me resta o nada? A paz fabricada escorre pelo asfalto, é o que dizem, mas as facadas ainda ecoam em algum beco. No beco tudo floresce. Florescem as adolescentes grávidas, a arte e a miséria. Floresce a fuga, o tráfico, o fumo. Floresce o aborto, o nascimento, o suicídio. Do beco, tudo é capaz de nascer, de resistir, de andar e de pensar. Penso que vim do beco.
Não penso que vim de lá por vaidade, mas por deslocamento, se não me encaixo. Faltam alguns tijolos para construir esse prédio. Falta concreto, faltam os pedreiros, que escapam por uma marmita sob a luz quente de meio-dia.
Eles são todo o proletariado. A mulher proletária berra, gerando mais um operário, um braço, uma perna, uma ferramenta. Onde nasce a massa, digo, o fio de água que manda nisso tudo? Nos berços de Deus ou nas mãos dos presidentes? Os artistas nascem ainda?
Ai! A arte ainda suspira? Ainda caminha sob a chuva ácida? E que caminho é esse, sem iluminação, sem arroz, sem feijão, que eles todos perseguem. A inflação cresce, os becos escurecem e os artistas, eles ainda estão aí? Que ecoe um grito de ajuda, uma fala contida, um berro de amor, para que eu saiba que ainda vivem.
Não me fale de amor, pois não sei se acredito, não sei se é real. Mas juro como tento crer. Não creio em Deus, não creio na morte, não creio na vida? Em que acreditar, se tudo mostra-se hipocrisia. Ainda dança alguma verdade no meio do aço, do concreto, do asfalto?
As ruas minguam, e não encontro abrigo senão no que já chamo de lar. Venham me visitar, digo, e correm, correm, correm. Para onde correm quando chove, quando se incendeiam as casas, quando as estrelas caem do céu em terremotos. Fogem dos gases, das luzes, da cidade? A guerra é lá ou é aqui? Se um cai, todos caem. Acho que é aqui.
Não me surpreendem os assaltos, os roubos, os furtos. Gritem mais forte: eu desejo! Eu quero! Eu amo! Cada grito suprimido na bolha fabricada, em um quarto, em uma cela, em um leito. Se morre um, não faz mal, já nasce o outro. Melhor para as crises. As crises humanas, as doenças. Ninguém é saudável. Eu não sou saudável e esqueci o sentido de saúde. Se há fim, para que se importar?
Eu berro um som oco, silencioso, sozinho. Se sigo um caminho, seja um beco, seja uma rua, uma avenida ou os ares, há fim? Há começo, há sentido. Não sei por onde vou, mas não volto para lá, não fico aqui. Se te encontro, nos desejemos boa sorte, um futuro que se produz, que nasce, renasce, um dia morre, mas não agora. Eu espero. Espere por mim. O norte se mostra nítido em algum lugar, ainda nos encontraremos. Não aqui, em uma parada de ônibus, quando a chuva der uma trégua e os pássaros voltarem a circular entre as nuvens.

amor às operárias

As estúpidas, medíocres, famigeradas.
As formigas retornam, picam-me e roubam-me a glicose, até que agonizo, hipoglicêmica. Retornam pelos meios opacos, pelos buracos na parede, saem de mim e retornam, até que tomem conta do fígado, do útero, do pulmão, dos rins. Ironicamente, meu coração ainda pulsa.
As malditas de Quaresma deixaram-lhe e vieram matar-me no lugar. Expulsam minha mãe, expulsam meu marido, expulsam meu filho, e eu sou a única que não pode deixá-las, a não ser que me deixem. Destroem-me a paciência, a calma, a vida. Torno-me escrava, logo das formigas! O doce de minha casa as abriga, as nutre, as abraça, enquanto que eu, ingênua, empobreço, doente, faminta. Estaria Kafka correto? Acho que dou a luz às formigas, que hoje me amam. Não, não, não. Eu as abomino, eu as odeio, e elas me dominam. Olho-me no espelho e não mais me reconheço. Viro uma formiga. E minha família? Minha mãe, meu marido, meu filho? Fogem e não tornam à casa. Formigas, por que deixaram Quaresma? Destruam-lhe o Sossego, mas não acabem com o meu. Não tenho religião, não tenho casa, não tenho família. Tenho meu reflexo, tenho as formigas, e tudo dissolve-se em chamas no formigueiro destruído.

Telefonema

Termino de lavar a louça e sento-me na cadeira desconfortável. 22 horas. Minhas pernas já tremem, minhas pálpebras já dançam, como se ao som de um conhecido sussurro, “vá dormir, amanhã você precisa acordar cedo”. Acordar cedo, nunca gostei. Mas nunca gostei de lavar a louça, e agora o faço. Necessidade muda a gente, já dizia mamãe.
Fecho os olhos, para não ver mais nada. Não ver a TV, com suas novelas medíocres, nem o gato miando por comida, nem a bancada suja de poeira. Não faço um movimento sequer. Até que o telefone comece a tocar. E toca, e toca, e toca. Mas não quero sair dali, da posição que já vi em algum lugar que faz mal à coluna. Não ligo, vamos todos morrer tortos e doentes, de qualquer jeito.
E o telefone insiste, mas a preguiça parece ser maior, e a música estridente vira melodia para mim, mas não para o gato, que mia nervoso.
Abro os olhos, e as pupilas espantam-se com a claridade, que é maior que minha força de vontade. Mas levanto-me, enquanto que o telefone já toca pela terceira vez. Mamãe anda doente? Meu irmão quer alguma coisa?
Atendo e digo logo um “alô” rabugento, cansado. Perdoe-me, não sou mal-educada, apenas preguiçosa. Se é que assim posso dizer.
E ninguém responde. Malditos. Vivo nessa constantemente, ligam, mas nada dizem. Mas o telefone toca de novo. Os insistentes não percebem que sou pobre e não posso fazer mais uma conta. Um novo “alô” e dessa vez alguém responde. Não é um “Oi”, um “Boa Noite”, nem um “Senhora fulana-de-tal, gostaria de fazer mais uma conta com cartão de crédito para que possamos sugar seu dinheiro antes que você se dê conta?”. É um suspiro, um soluço. Não um soluço de tristeza, mas de cansaço, que clama pelo sono. É uma voz feminina, mas que nada diz.
Repito novamente o “Alô”, mas ela nada responde. Desligo impaciente. Trote? Não mereço.
E ele toca de novo, já preparo-me para dizer belas palavras, mas a voz sussurra algo, indecifrável. “Desculpa, não consigo entender”, é o que respondo, mas os soluços recomeçam. “Mãe, é você?”. Não, não é ela. Sou eu que respondo. Minha voz, ali, do outro lado da linha. Linha tênue de tempos que se cruzam. Não sei o que acontece, e meus braços agora tremem, não sei se de medo, de sono, de cansaço, ou de simples emoção. “Durma logo”, é o que a voz, igual à minha, responde. A voz sonolenta, que funde-se em sonho e realidade.
Desligo, e aquela experiência assusta-me, mas o gato mia por comida, e tento tirar pensamentos estranhos da cabeça.
Deito-me para dormir. Minhas pernas entregam-se ao colchão como se o amasse, e sinto a dor boa que é o relaxamento. Minhas pálpebras querem me levar, mas ainda ando assustada. Durma logo. O vento que entra pela janela mistura-se com o dos vales que nunca vi e logo entrego-me aos sonhos, abraçando essa linha tímida entre sonho e realidade, o que sou e serei. Entre mim e o que há de muito maior que não conheço.

Partitura

piano

4, 3, 2, 1 e… 4, 3, 2, 1 e… 4, 3, 2, 1 e…
Não sai, o som não sai, digo. Meus dedos não se movem e não consigo mais tocar. Tocar tua pele. Não, não! Tocar as teclas do piano. Se fundem as teclas pretas e brancas, os sons, os tons. Falhei, professor, falhei.
Tenho essa partitura em frente a mim, só mais essa. É a sétima do dia. Se já encarei seis, por que não mais uma?
Porque não.
Os sons viram uma confusão. Um carnaval, uma alegoria. Alegria, ainda procuro. Procuro ao tocar, ao relaxar meus dedos, já calejados, esbranquiçados, usados. Hoje estão mais finos, assim posso alcançar notas cada vez mais distantes. Uma pianista deve ter o corpo esguio, elegante. Meus dedos dançam como a bailarina ao som do lago dos cisnes.
Ultimamente, as músicas estão apenas em tom menor, pois algo anda minguando. Algo que não sei mais distinguir. Não sei se a dor é física, nos dedos torturados (não, não estão torturados, isso é esforço, e serei recompensada), ou na alma torturada (mas que tortura, se tenho tudo o que quero?). Algo dói, e a partitura sabe disso. Partitura que fica cada vez mais difícil de enxergar. As notas, pequeninas, fogem da minha visão, pois o Sol que ilumina a sala já se põe, já se leva. Quero levar-me também.
Pressiono a tecla mais aguda, que me lembra uma criança indefesa, enquanto que a mais grave é o que me tornei hoje. Estou pesada, demais, mas nem como muito esses dias.
Esforço, esforço. Esforço tem recompensa, é o que me dizem. Estudar, treinar, ganhar. É assim. Mas mesmo nessa certeza, nessa equação que dizem ser a correta, não acredito. Não sei se me levarei junto com o sol e renascerei novamente para vê-las. As recompensas, falo delas. Por que, por que?
Porque amo. E amar me dilacera. Amo o som, a onda, as teclas, que agora se juntam em uma só cor. Cinza como os dias raros de chuva. Não é mais Satie, ou Tchaikosvsky, ou Haydn. Sou eu mesma. Ou assim acho que é, à medida que sou engolida pelos últimos raios de luz.

A passagem que deveria ter rasgado

Acho que o relógio parou. Sim, parou. Congelou como o clima. Mas os termômetros marcam 32 graus. O frio congela dentro de mim mesma. O trem anda de costas e eu não consigo mais saber para onde estou indo, meu destino final, nem quando chegarei lá. Logo esse percurso, que já fiz tantas vezes, por que me assusta agora? Não sei se é o tempo congelado, ou o frio que sinto. Não estou com febre, sei disso. De alguma maneira vem uma sede de algum lugar e minha lingua, seca, salta para fora da boca. Procuro a garrafa de água, que agora ficou quente com a verdadeira temperatura que os termômetros marcam. Por que estou tão assustada? Já sei o que vou encontrar. Alguém estará esperando por mim? Acho que esse é o medo, afinal. De ficar sozinha. Sentir-se sozinha. Ver-me sozinha. Logo a solidão, que naqueles textos melancólicos eu dizia ser minha melhor amiga. Quanta hipocrisia já escrevi! Não quero me ver sozinha. Minhas pernas tremem, e a sede aumenta ao ver o solo seco pela janela do trem. Vai de costas, e o mundo parece dar voltas. Odeio isso, não ver para onde estou indo, como se estivesse enxergando apenas o passado. Ainda sinto frio. Mas o vento do ar condicionado é seco. Deveria ter escolhido um vagão melhor. Não há ninguém sentado ao meu lado, mas consigo ouvir na frente o choro da criança que quer mamar no colo da mãe. Eu deveria ter tido filhos. Não me sentiria tão só. Mas tempo, tempo, não tenho tempo! Para que serve meu tempo, então? Nem sei mais responder. Ou estou perdida, ou quero casar mas tenho medo, é o que dizem. Não sabem nada. Não sabem que meu relógio congelou, que sinto frio no calor e que vou de costas para um destino que já me esqueci e tenho medo de descobrir. Talvez seja a loucura. Ou talvez seja o solo seco que avisto pela janela, me engolindo, enquanto o sol queima meus olhos. Estou cega! O tempo parou.