amor às operárias

As estúpidas, medíocres, famigeradas.
As formigas retornam, picam-me e roubam-me a glicose, até que agonizo, hipoglicêmica. Retornam pelos meios opacos, pelos buracos na parede, saem de mim e retornam, até que tomem conta do fígado, do útero, do pulmão, dos rins. Ironicamente, meu coração ainda pulsa.
As malditas de Quaresma deixaram-lhe e vieram matar-me no lugar. Expulsam minha mãe, expulsam meu marido, expulsam meu filho, e eu sou a única que não pode deixá-las, a não ser que me deixem. Destroem-me a paciência, a calma, a vida. Torno-me escrava, logo das formigas! O doce de minha casa as abriga, as nutre, as abraça, enquanto que eu, ingênua, empobreço, doente, faminta. Estaria Kafka correto? Acho que dou a luz às formigas, que hoje me amam. Não, não, não. Eu as abomino, eu as odeio, e elas me dominam. Olho-me no espelho e não mais me reconheço. Viro uma formiga. E minha família? Minha mãe, meu marido, meu filho? Fogem e não tornam à casa. Formigas, por que deixaram Quaresma? Destruam-lhe o Sossego, mas não acabem com o meu. Não tenho religião, não tenho casa, não tenho família. Tenho meu reflexo, tenho as formigas, e tudo dissolve-se em chamas no formigueiro destruído.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s