Telefonema

Termino de lavar a louça e sento-me na cadeira desconfortável. 22 horas. Minhas pernas já tremem, minhas pálpebras já dançam, como se ao som de um conhecido sussurro, “vá dormir, amanhã você precisa acordar cedo”. Acordar cedo, nunca gostei. Mas nunca gostei de lavar a louça, e agora o faço. Necessidade muda a gente, já dizia mamãe.
Fecho os olhos, para não ver mais nada. Não ver a TV, com suas novelas medíocres, nem o gato miando por comida, nem a bancada suja de poeira. Não faço um movimento sequer. Até que o telefone comece a tocar. E toca, e toca, e toca. Mas não quero sair dali, da posição que já vi em algum lugar que faz mal à coluna. Não ligo, vamos todos morrer tortos e doentes, de qualquer jeito.
E o telefone insiste, mas a preguiça parece ser maior, e a música estridente vira melodia para mim, mas não para o gato, que mia nervoso.
Abro os olhos, e as pupilas espantam-se com a claridade, que é maior que minha força de vontade. Mas levanto-me, enquanto que o telefone já toca pela terceira vez. Mamãe anda doente? Meu irmão quer alguma coisa?
Atendo e digo logo um “alô” rabugento, cansado. Perdoe-me, não sou mal-educada, apenas preguiçosa. Se é que assim posso dizer.
E ninguém responde. Malditos. Vivo nessa constantemente, ligam, mas nada dizem. Mas o telefone toca de novo. Os insistentes não percebem que sou pobre e não posso fazer mais uma conta. Um novo “alô” e dessa vez alguém responde. Não é um “Oi”, um “Boa Noite”, nem um “Senhora fulana-de-tal, gostaria de fazer mais uma conta com cartão de crédito para que possamos sugar seu dinheiro antes que você se dê conta?”. É um suspiro, um soluço. Não um soluço de tristeza, mas de cansaço, que clama pelo sono. É uma voz feminina, mas que nada diz.
Repito novamente o “Alô”, mas ela nada responde. Desligo impaciente. Trote? Não mereço.
E ele toca de novo, já preparo-me para dizer belas palavras, mas a voz sussurra algo, indecifrável. “Desculpa, não consigo entender”, é o que respondo, mas os soluços recomeçam. “Mãe, é você?”. Não, não é ela. Sou eu que respondo. Minha voz, ali, do outro lado da linha. Linha tênue de tempos que se cruzam. Não sei o que acontece, e meus braços agora tremem, não sei se de medo, de sono, de cansaço, ou de simples emoção. “Durma logo”, é o que a voz, igual à minha, responde. A voz sonolenta, que funde-se em sonho e realidade.
Desligo, e aquela experiência assusta-me, mas o gato mia por comida, e tento tirar pensamentos estranhos da cabeça.
Deito-me para dormir. Minhas pernas entregam-se ao colchão como se o amasse, e sinto a dor boa que é o relaxamento. Minhas pálpebras querem me levar, mas ainda ando assustada. Durma logo. O vento que entra pela janela mistura-se com o dos vales que nunca vi e logo entrego-me aos sonhos, abraçando essa linha tímida entre sonho e realidade, o que sou e serei. Entre mim e o que há de muito maior que não conheço.

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