O que penso quando falo de saudade

Não é um pensamento momentâneo. Como oxigênio, agora já faz parte do que sou. Maldito seja aquela que quis criar a palavra ‘saudade’ no português.
Meu corpo hoje é sonolento, tento dormir, mas sob as pálpebras descansa um quê que não sei. Não sei mesmo, só sinto. Nem falo muito sobre isso, para não levantar suspeitas. Mas hoje sou como um defunto autor, estou livre dos julgamentos, inclusive dos meus.
Não que tenha morrido, isso não. Entrei apenas em um casulo de onde não posso ver nenhum desses rostos que já andavam meio apagados. Serei sincera, prometo.
Acho que enrolo demais, mas não é fácil falar sobre isso. Saudade não é algo meu, é mais universal do que um campo léxico abrange. Não é para ser dito com a boca, mas com os olhos. Não me refiro aos olhos que sustentam-se ao ver o motivo da eterna saudade. Mas aqueles que calam-se, fecham-se e apenas sentem o vento que faz cócegas nos pés.
Se não sou direta, é porque tenho medo. Temo agora o que isso tudo pode trazer. Abro meu peito de uma maneira tão sincera. O mundo não está acostumado a essa sinceridade nua e largada. Tudo hoje é tão objetivo. Perdi-me em algum lugar.
Aquece minha saudade em algum braço qualquer. Em posição fetal, pondero se o que sinto no estômago é fome ou aquele quê que não sei. Poderiam descer as lágrimas agora mesmo, mas saudade não é tristeza. Tampouco carência. É o amor real que volta a ser ingênuo e platônico. Ele mesmo dizia. Falo de Platão agora. Dizia que nos dividimos no sensível e no inteligível. A saudade é a ponte entre esses dois. Já não sei o que falo, nem gosto dessa filosofia toda.
Sinto tanto a falta. Falta de tudo e tanto. Eu, que tocava piano tão bem, e escrevia apenas por escrever. O tempo roubou isso de mim também. Isso também é saudade. Sinto saudade até de mim, que egocêntrica.
Acho que deveria calar-me. Alguém pode chegar aqui e perceber que já estou dizendo tudo. Desculpa-me se não me contive.
A saudade rói por dentro, feito um parasita. Mas um parasita que me ama. Viu? Não há mais coerência. É tudo palavra.
Hoje volto ao meu piano.

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