jazzy

é noite de domingo e meu peito explode como uma improvisação. são acordes momentâneos que, em tom menor, se misturam à batida dos homens que trabalham ainda na rua. mas domingo de noite, por que trabalham? pelo pão quente ou pela carne quente, que anseia em receber o sangue de um esforço único. chega de vida vazia, essa dos homens, essa minha. chega de carne sedenta por sangue corrente. o jazz já mudou de compasso. anda tão alegre. eu era alegre, alegre no carnaval nas praias ou na serra. eu corria com pés de menina torta e cheia. ando tão vazia. vazia de vida e de mundo. dizia wittgenstein que o mundo é linguagem, é palavra. mas acho que ele estava errado, ou não. perdi o mundo mas não perdi a palavra. solto-as como quem solta fogos no dia de grande final. já foi-se a final. brasil ganhou, não ganhou? não sei, só sei que o jazz acelerou, e bato meus pés acompanhando. o gato dorme em algum lugar, o mundo todo dorme em algum lugar, mas eu continuo aqui acordada. não é a luz que me acorda, sequer o jazz, é você que me chama aqui para escrever-te. é só você, não é. não fecho os olhos, apesar deles já beirarem o suicídio. queria abrir os olhos com essa vontade para ver o mundo, ver essa gente. são tantas pernas, magras, bonitas e amarelas. mas só vejo teu rosto, que assombra-me feito escuridão. eu ainda vou fugir. vou abrir os olhos. vou escutar, aprender, crescer. o jazz acabou, mas meus olhos são inexoráveis. não durmo, e acho que nunca mais dormirei.

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