amor às operárias

As estúpidas, medíocres, famigeradas.
As formigas retornam, picam-me e roubam-me a glicose, até que agonizo, hipoglicêmica. Retornam pelos meios opacos, pelos buracos na parede, saem de mim e retornam, até que tomem conta do fígado, do útero, do pulmão, dos rins. Ironicamente, meu coração ainda pulsa.
As malditas de Quaresma deixaram-lhe e vieram matar-me no lugar. Expulsam minha mãe, expulsam meu marido, expulsam meu filho, e eu sou a única que não pode deixá-las, a não ser que me deixem. Destroem-me a paciência, a calma, a vida. Torno-me escrava, logo das formigas! O doce de minha casa as abriga, as nutre, as abraça, enquanto que eu, ingênua, empobreço, doente, faminta. Estaria Kafka correto? Acho que dou a luz às formigas, que hoje me amam. Não, não, não. Eu as abomino, eu as odeio, e elas me dominam. Olho-me no espelho e não mais me reconheço. Viro uma formiga. E minha família? Minha mãe, meu marido, meu filho? Fogem e não tornam à casa. Formigas, por que deixaram Quaresma? Destruam-lhe o Sossego, mas não acabem com o meu. Não tenho religião, não tenho casa, não tenho família. Tenho meu reflexo, tenho as formigas, e tudo dissolve-se em chamas no formigueiro destruído.

Anúncios

Telefonema

Termino de lavar a louça e sento-me na cadeira desconfortável. 22 horas. Minhas pernas já tremem, minhas pálpebras já dançam, como se ao som de um conhecido sussurro, “vá dormir, amanhã você precisa acordar cedo”. Acordar cedo, nunca gostei. Mas nunca gostei de lavar a louça, e agora o faço. Necessidade muda a gente, já dizia mamãe.
Fecho os olhos, para não ver mais nada. Não ver a TV, com suas novelas medíocres, nem o gato miando por comida, nem a bancada suja de poeira. Não faço um movimento sequer. Até que o telefone comece a tocar. E toca, e toca, e toca. Mas não quero sair dali, da posição que já vi em algum lugar que faz mal à coluna. Não ligo, vamos todos morrer tortos e doentes, de qualquer jeito.
E o telefone insiste, mas a preguiça parece ser maior, e a música estridente vira melodia para mim, mas não para o gato, que mia nervoso.
Abro os olhos, e as pupilas espantam-se com a claridade, que é maior que minha força de vontade. Mas levanto-me, enquanto que o telefone já toca pela terceira vez. Mamãe anda doente? Meu irmão quer alguma coisa?
Atendo e digo logo um “alô” rabugento, cansado. Perdoe-me, não sou mal-educada, apenas preguiçosa. Se é que assim posso dizer.
E ninguém responde. Malditos. Vivo nessa constantemente, ligam, mas nada dizem. Mas o telefone toca de novo. Os insistentes não percebem que sou pobre e não posso fazer mais uma conta. Um novo “alô” e dessa vez alguém responde. Não é um “Oi”, um “Boa Noite”, nem um “Senhora fulana-de-tal, gostaria de fazer mais uma conta com cartão de crédito para que possamos sugar seu dinheiro antes que você se dê conta?”. É um suspiro, um soluço. Não um soluço de tristeza, mas de cansaço, que clama pelo sono. É uma voz feminina, mas que nada diz.
Repito novamente o “Alô”, mas ela nada responde. Desligo impaciente. Trote? Não mereço.
E ele toca de novo, já preparo-me para dizer belas palavras, mas a voz sussurra algo, indecifrável. “Desculpa, não consigo entender”, é o que respondo, mas os soluços recomeçam. “Mãe, é você?”. Não, não é ela. Sou eu que respondo. Minha voz, ali, do outro lado da linha. Linha tênue de tempos que se cruzam. Não sei o que acontece, e meus braços agora tremem, não sei se de medo, de sono, de cansaço, ou de simples emoção. “Durma logo”, é o que a voz, igual à minha, responde. A voz sonolenta, que funde-se em sonho e realidade.
Desligo, e aquela experiência assusta-me, mas o gato mia por comida, e tento tirar pensamentos estranhos da cabeça.
Deito-me para dormir. Minhas pernas entregam-se ao colchão como se o amasse, e sinto a dor boa que é o relaxamento. Minhas pálpebras querem me levar, mas ainda ando assustada. Durma logo. O vento que entra pela janela mistura-se com o dos vales que nunca vi e logo entrego-me aos sonhos, abraçando essa linha tímida entre sonho e realidade, o que sou e serei. Entre mim e o que há de muito maior que não conheço.

Partitura

piano

4, 3, 2, 1 e… 4, 3, 2, 1 e… 4, 3, 2, 1 e…
Não sai, o som não sai, digo. Meus dedos não se movem e não consigo mais tocar. Tocar tua pele. Não, não! Tocar as teclas do piano. Se fundem as teclas pretas e brancas, os sons, os tons. Falhei, professor, falhei.
Tenho essa partitura em frente a mim, só mais essa. É a sétima do dia. Se já encarei seis, por que não mais uma?
Porque não.
Os sons viram uma confusão. Um carnaval, uma alegoria. Alegria, ainda procuro. Procuro ao tocar, ao relaxar meus dedos, já calejados, esbranquiçados, usados. Hoje estão mais finos, assim posso alcançar notas cada vez mais distantes. Uma pianista deve ter o corpo esguio, elegante. Meus dedos dançam como a bailarina ao som do lago dos cisnes.
Ultimamente, as músicas estão apenas em tom menor, pois algo anda minguando. Algo que não sei mais distinguir. Não sei se a dor é física, nos dedos torturados (não, não estão torturados, isso é esforço, e serei recompensada), ou na alma torturada (mas que tortura, se tenho tudo o que quero?). Algo dói, e a partitura sabe disso. Partitura que fica cada vez mais difícil de enxergar. As notas, pequeninas, fogem da minha visão, pois o Sol que ilumina a sala já se põe, já se leva. Quero levar-me também.
Pressiono a tecla mais aguda, que me lembra uma criança indefesa, enquanto que a mais grave é o que me tornei hoje. Estou pesada, demais, mas nem como muito esses dias.
Esforço, esforço. Esforço tem recompensa, é o que me dizem. Estudar, treinar, ganhar. É assim. Mas mesmo nessa certeza, nessa equação que dizem ser a correta, não acredito. Não sei se me levarei junto com o sol e renascerei novamente para vê-las. As recompensas, falo delas. Por que, por que?
Porque amo. E amar me dilacera. Amo o som, a onda, as teclas, que agora se juntam em uma só cor. Cinza como os dias raros de chuva. Não é mais Satie, ou Tchaikosvsky, ou Haydn. Sou eu mesma. Ou assim acho que é, à medida que sou engolida pelos últimos raios de luz.

A passagem que deveria ter rasgado

Acho que o relógio parou. Sim, parou. Congelou como o clima. Mas os termômetros marcam 32 graus. O frio congela dentro de mim mesma. O trem anda de costas e eu não consigo mais saber para onde estou indo, meu destino final, nem quando chegarei lá. Logo esse percurso, que já fiz tantas vezes, por que me assusta agora? Não sei se é o tempo congelado, ou o frio que sinto. Não estou com febre, sei disso. De alguma maneira vem uma sede de algum lugar e minha lingua, seca, salta para fora da boca. Procuro a garrafa de água, que agora ficou quente com a verdadeira temperatura que os termômetros marcam. Por que estou tão assustada? Já sei o que vou encontrar. Alguém estará esperando por mim? Acho que esse é o medo, afinal. De ficar sozinha. Sentir-se sozinha. Ver-me sozinha. Logo a solidão, que naqueles textos melancólicos eu dizia ser minha melhor amiga. Quanta hipocrisia já escrevi! Não quero me ver sozinha. Minhas pernas tremem, e a sede aumenta ao ver o solo seco pela janela do trem. Vai de costas, e o mundo parece dar voltas. Odeio isso, não ver para onde estou indo, como se estivesse enxergando apenas o passado. Ainda sinto frio. Mas o vento do ar condicionado é seco. Deveria ter escolhido um vagão melhor. Não há ninguém sentado ao meu lado, mas consigo ouvir na frente o choro da criança que quer mamar no colo da mãe. Eu deveria ter tido filhos. Não me sentiria tão só. Mas tempo, tempo, não tenho tempo! Para que serve meu tempo, então? Nem sei mais responder. Ou estou perdida, ou quero casar mas tenho medo, é o que dizem. Não sabem nada. Não sabem que meu relógio congelou, que sinto frio no calor e que vou de costas para um destino que já me esqueci e tenho medo de descobrir. Talvez seja a loucura. Ou talvez seja o solo seco que avisto pela janela, me engolindo, enquanto o sol queima meus olhos. Estou cega! O tempo parou.

O poeta também escreve sobre felicidade

Sorrio desgraçadamente
de modo que meus músculos
tremem
e meus ossos
estalam
cantando surpresa.

Um sopro de não sei o que
que nasce de um ventre puro,
esse contentamento
que sinto ao abrir os olhos,
cortinas antigas e vermelhas.

É essa pureza
que chamo de satisfação,
esse dente torto
que em meu sorriso
também canta a surpresa.

Hoje a água molha as ruas,
os pés infantis,
que correm para suas mães,
em uma claridade
infinita.

Hoje as rosas brilham para mim.

silêncio

choro.
choro seco e ameno
feito a primavera de setembro.

e quando acalmo-me
é a distração aguda que brota
como o pão na mesa de café.

tremo.
um tremor inquilino, estúpido,
melancólico,
mas que logo se desfaz em lembrança
(ou frustração).

lembro-me.
do natal, ou do hospital,
ao ver mais um
que partilharia do meu sangue
vir à terra.

(paro de escrever,
os grilos vibram em algum lugar)

não chamo de escuridão,
chamo de saudade,
ou toda esse palavreado
de quem tenta achar consolação
em um alicerce qualquer.

as bochechas,
estas já estão secas,
salgadas como o mar,
que abriga um cruzeiro
com passageiros ausentes.

chore, mãe,
chore, tio,
chore pai.

a saudade gerou realidade
e gera nascimento,
se por mais um segundo, um ano ou dez,
ainda viveremos.

não com ela,
mas por ela,
que hoje é lua
em um céu sem nuvens.

(Hoje completo 16 anos. Hoje também faz um mês que perdi minha prima devido a complicações em uma cirurgia. A conformação ainda não chegou, nem sei quando chegará. Meio clichê, mas só o tempo diz. 16 anos atrás eu nascia e minha prima também tinha 16 anos. Ela acabava de voltar de uma temporada no Canadá. Não sei o que estarei fazendo daqui a 16 anos. Não sei se o filho da minha prima estará assistindo ao nascimento do meu filho, não sei se estarei fazendo o que gosto e amando quem merece ser amado. Não consigo projetar a vida para daqui a 16 anos, como acho que ela não projetou para apenas 32. Não tenho religião e não sei o que esperar após a morte, só sei que chegará. Não sei quando, como ou onde. Aprendi que não devo pensar em daqui a 16 anos, nem 50 ou 1. Também não pensarei no dia de ontem, ou no ano passado. Vivo hoje, e espero que assim todos consigam viver.)

Reflexão sob meia luz

Sendo, distingue-se.
Na pupila do ser,
transfigura-se
as certezas inexatas:
ainda há o que descobrir.

Incógnita,
erro constante
este que percorre veias
e adentra abismos:
nessas profundezas
perdem-se distinções,
é tudo oblíquo.

Somam-se as incertezas,
e de ser em ser
nasce a constância:
está tudo errado,
sem solução,
vive-se de angústia,
vive-se de mudança.

O sangue é solúvel no fim do abismo:
Viva a dis-
-solução!